Justiça tributária e racial em pauta: Coletiva Mahin promove roda de conversa sobre desigualdades no sistema fiscal
- Coletiva Mahin
- 27 de mar.
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A Coletiva Mahin realizou uma roda de conversa, no dia 24 de março, dedicada a debater o sistema tributário brasileiro sob a perspectiva da justiça fiscal, racial e de gênero. O encontro reuniu mulheres negras, ativistas e especialistas para refletir sobre como a estrutura atual de tributação aprofunda desigualdades e impacta diretamente o cotidiano das populações periféricas.
A iniciativa reforça o compromisso da organização em ampliar o acesso ao debate e fortalecer estratégias de comunicação popular. A mediação da roda contou com a participação da jornalista e mobilizadora Juliana Dias, que destacou a importância de aproximar o tema da tributação da vida cotidiana. “Falar de imposto é falar do preço do gás, do feijão, da energia e do transporte”, ressaltou, evidenciando que o sistema tributário não é abstrato, mas estruturante das condições de vida da população.
Durante o debate, foi consenso entre as participantes que o modelo tributário brasileiro é regressivo, ou seja, penaliza proporcionalmente mais quem tem menos renda. Mulheres negras, majoritariamente chefes de família e inseridas em trabalhos precarizados, estão entre as mais impactadas, especialmente pela alta carga de impostos sobre o consumo.
A roda também apresentou e fortaleceu a agenda da campanha Justiça Tributária Já, que defende a taxação dos super-ricos, a tributação de lucros e dividendos e a redução dos impostos sobre itens básicos. A proposta é construir um sistema mais justo, feminista e antirracista, capaz de redistribuir renda e garantir financiamento adequado para políticas públicas.
Em sua contribuição de maneira remota, a analista de planejamento e orçamento Clara Marinho destacou que, embora o sistema tributário não explicite recortes raciais, ele reproduz desigualdades históricas. Segundo ela, a população negra paga mais impostos em relação à sua renda, reflexo de processos históricos de exclusão econômica. A especialista também analisou o atual cenário de reforma tributária, apontando avanços e riscos, como o lobby de setores empresariais e a disputa em torno de mecanismos como o cashback e a ampliação da cesta básica.
A socióloga e ativista Vilma Reis também teve papel central no debate, reforçando a relação entre tributação, desigualdade racial e empobrecimento das mulheres negras. Em sua fala, destacou que o sistema tributário brasileiro está profundamente conectado às estruturas históricas de exclusão e à manutenção de privilégios das elites econômicas. Vilma chamou atenção para o impacto concreto dessa lógica na vida das mulheres negras, marcadas por salários mais baixos, inserção precária no mercado de trabalho e sobrecarga de responsabilidades.

A ativista também ressaltou a importância da conquista da inclusão do quesito raça-cor na declaração do Imposto de Renda a partir de 2026, resultado de décadas de luta do movimento negro. Para ela, a medida representa uma virada estratégica na produção de dados e na possibilidade de incidência por políticas públicas mais justas e direcionadas.
Além disso, Vilma Reis problematizou o debate sobre “ajuste fiscal”, criticando a lógica que prioriza cortes em políticas sociais enquanto mantém benefícios e isenções para grandes empresários. Segundo ela, é fundamental questionar quem paga a conta do Estado e quem se beneficia dele, reforçando a necessidade de disputar o orçamento público como ferramenta de justiça social e racial.

A roda de conversa também reafirmou o papel da Coletiva Mahin no monitoramento do orçamento público e na formação política de mulheres negras. A atividade foi compreendida como o início de um processo mais amplo de mobilização, que pretende formar multiplicadoras nos territórios, ampliar o debate e incidir sobre as decisões econômicas que afetam diretamente a vida da população.
Como próximos passos, a organização prevê a realização de novas rodas de conversa, a distribuição de materiais formativos e a construção de um processo coletivo de incidência política em defesa de uma reforma tributária comprometida com o bem viver, a reparação histórica e a justiça racial.













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